Após mais de um ano “offline” começo a ficar “online” novamente!

Por Rodrigo Baglini · 17 de agosto de 2021

Segunda-feira, o despertador tocou às 5h30, a cama me empurrou como se não houvesse os dez minutos de soneca que, em tempos normais sempre colocava. Estava ansioso, parecia ser meu primeiro dia entrando numa sala de aula, tinha o mesmo sentimento de há 12 anos , quando pela primeira vez colocava aquele jaleco branco como se fosse um manto de super-herói.

Após mais de um ano em regime remoto -com vozes metalizadas e barulhos constantes da ventoinha do computador-finalmente retornaria para as aulas presencias.Confesso: estava nervoso! Não conhecia minhas turmas, apenas letras coloridas que identificavam as iniciais do nome de cada um, pois as câmeras, raramente eram ativadas. A ansiedade naquela manhã parecia vento no rosto durante uma parada na frente do mar!

No entanto, diferente do meu primeiro dia em sala de aula, que, mesmo com toda a inexperiência, havia preparado uma aula. Nesse momento não preparei nada, só acordei e fui, e o pior nem um “ oi”,saberia dar para as crianças. Como isso é possível? Eles são meus alunos ! Tem mais de um ano e não sei das suas dificuldades! Não sei também quais são os planos de cada um para o futuro.Em simultâneo realizei conselhos de classe com meus colegas e coordenação, onde decidíamos quais seriam as notas de cada estudante, se seriam aprovados, reprovados ou até mesmo se haveria ou não recuperação. Coisas que em situações normais/presenciais eu realizaria! De verdade, jogamos o pacote secular do presencial para o “online”!

Sinto que o retorno presencial era, em simultâneo, meu primeiro dia e o último dia letivo! Tudo era estranho, a começar pelo silêncio do corredor da escola. Antes espaço muito vivo e cheio de energia, mas naquele momento encontrava-se com sentimentos frios de uma sexta-feira de dezembro, após o conselho final do ano letivo – gelado e escuro. Mas, vamos lá, a sala de aula está alguns passos a minha frente e quero logo descobrir quem são aqueles emojis/stickers que me acompanharam durante esse período.

Screenshot de aula no Google Meet onde todos os estudantes mantém suas câmeras fechadas. Fonte: https://youtu.be/qQ5RmzskUH8

Entro na sala e digo bom-dia, os olhares, me acompanham de maneira silenciosa até minha mesa. Sinto o primeiro incômodo, pois aquilo era muito parecido com as chamadas do Meet. Sentia que os microfones, mesmo presencialmente, continuavam desligados. Posiciono-me no centro da sala, como sempre fiz e digo: – E aí pessoal!? Como estão? Vamos com tudo? E a resposta que recebo de um aluno após “abrir” o microfone e sua “câmera”: – Nossa, professor! Você é diferente pessoalmente! Confesso que fiquei assustado ao escutar aquilo, afinal ele era meu aluno há mais de um ano e não me conhecia e o pior, isso era recíproco.

O retorno presencial às aulas, evidentemente, nos mostraram algo: que, embora soubéssemos, precisaríamos passar por grandes desafios (claro que não esperávamos uma pandemia) para, de fato, perceber que a educação e o próprio processo de ensino e aprendizagem só são possíveis a partir do contato humano. E, que nenhuma tecnologia digital irá substituir o cheiro de uma sala de aula! Principalmente aquele que mistura a cola com o nevoeiro do giz ao apagar a lousa ou até mesmo a mancha vermelha no bolso da calça do canetão que estourou.

Durante esse período, a palavra formação em tecnologias digitais nunca esteve tanto em pauta. Claro! Era o que tínhamos para responder à urgência do ensino remoto, porém ao presenciar alguns cursos, sempre escutava relatos do tipo: —- Nossa, meus alunos estão super engajados e nem parece que estamos no ensino remoto! Ou depoimentos que mais serviam para justificar a presença no curso do que a própria realidade como: – Meus alunos estão criando, aprendendo, estão me surpreendendo!

Estes depoimentos me afligiam de tal modo que,  durante as lives/chamadas, fazia o mesmo papel do silêncio mórbido do Meet, não abria a câmera, não levantava a mão e não acionava o microfone, mas dizia, no afastar do meu quarto/sala de aula: — Como esses professores conseguem tudo isso? Eles não conhecem as crianças? Não pegaram na mão deles? Não sabem a angústia de cada um?

E lá se findava mais uma “live” de formação, em que as soluções digitais não eram construídas como soluções práticas, mas, sim, como uma instrumentalização técnica. Sou um grande apaixonado pelas tecnologias na educação e não nego isso para ninguém. Porem, desde que elas foram “raptadas” por grandes grupos mercadológicos, viraram chicotes para alguns professores que, em momentos de câmeras fechadas, exaurem-se como o pior profissional do mundo e acabam chorando no silêncio do carregar de mais uma “formação”.

Ufa! Tudo isso são sentimentos que me passaram apenas no primeiro dia de aula e que, numa espiral de lembranças, tudo isso me veio à cabeça. Se chegou até aqui, provavelmente fez companhia em meus devaneios e você pensou: — Esse Baglini reclama demais! Em certa medida, sou um reclamão mesmo, mas ainda bem que as angústias tomam  conta de mim,  uma vez que mudanças só partem do “errado”, porque se estiver certo…

Voltando ao início de nossa conversa, querem saber como terminou aquela primeira aula presencial? Do mesmo modo que as aulas no Meet, um tchau seco em que os emojis vão saindo um a um sem tocar, abraçar, gritar, chorar ou rir. Um ano e meio nos mostrou que a informação e as ferramentas podem estar disponíveis, mas o carinho e, principalmente, a aprendizagem é presencial.

Sinto que fiquei “offline” durante o período remoto, mas com o gradativo retorno presencial voltarei a ficar “online” com meus estudantes.

conheça o autor

Rodrigo Baglini

"A tecnologia mais eficiente criada pelo ser humano não são as máquinas tampouco os meios super mega ultra powers digitais, mas sim o diálogo, uma ferramenta de uso simples, mas de grande potencial em conectar, ajudar, colaborar e principalmente, AMPLIFICAR! -"

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