NÃO quero a MIGALHA, quero o BOLO!

Por Rodrigo Baglini · 7 de setembro de 2021

Já escrevi sobre muitas angústias de professores e professoras aqui no blog, aflições de notas, planos de aula, mostra do conhecimento,  currículo,  inovação,  aulas à distância e tudo que envolve os bastidores pouco ditos naquelas redes de formação, que carregam consigo iluminações acesas em palcos glamourosos e palestrantes que “amam” a Educação naquele momento, mas não compartilham da agonia que nós, professores e professoras, presenciamos rotineiramente.

Hoje, relatarei um fato que, embora não seja novidade para ninguém, costuma assolar e afastar grandes professores e professoras que poderiam estar engajados no processo de formação de uma sociedade crítica: a falta do reconhecimento ( e não digo o “tapa nas costas”),  sem mencionar os certificados, que entopem nossas gavetas e que, convenhamos, “damos banhos” em outras profissões quando o assunto é adquiri-los com a intenção de melhorar a nossa formação, hein! O que quero dizer hoje é sobre o reconhecimento financeiro!

Falar em valorização profissional docente sob o prisma de um bom salário, durante muito tempo, era quase um pecado e, como sentença, éramos apedrejados pelo sistema, afinal, quantas vezes escutei: “Que absurdo! Você, professor, salvador de uma nação, querer receber para educar nossa pátria! A Educação não se mede com “dinheiro” no fim do mês!”

Confesso que acreditava nisso e carregava comigo a quase aceitação de uma missão para o educar, pois não queria ser culpado pela falência do sistema educacional e, com isso, eu me desprofissionalizava para abraçar uma sociedade em tons fraternos e sacerdotais!

No entanto, enquanto fazia isso, percebia, lia e presenciava as operações bilionárias de companhias da Educação bem como a expansão de redes de ensino e o intenso comércio de programas/aplicativos entre as escolas, que prometiam “revolucionar” o processo educativo. Enquanto isso, eu, professor, com meu giz na mão, ganhava o mesmo salário e recebia”o tapa nas costas” com aquele elogio barato do gestor: “Nossa, professor, você é incrível! Os alunos amam suas aulas!” 

Fonte: Pixabay

Até que eu gostava desse elogio, que, enfim, enchia o meu ego e o bolso do dono da escola, pois meu reconhecimento era apenas um apertar de mãos!

A desvalorização financeira do professor é tamanha que institucionalizamos isso como normal, basta analisar nossas piadas em grupos de amigos quando referenciamos algo que é caro: “Sabem como é, né, sou professor! Tenho tudo, menos dinheiro!”

A partir do momento em que reconhecemos isso como algo normal, os donos de multinacionais, escolas e qualquer outro elemento que capitaliza a Educação pouco irão se movimentar para mudar o status-quo, pois, se agradecemos pelas migalhas, por que darão o bolo inteiro?

Como sei que esse ‘blog’ chega para muitas pessoas, vou ilustrar a minha fala aqui e, com certeza, muitos identificarão parte da normalização da desvalorização financeira do professor.

Provavelmente, você já deve ter frequentado algumas “feiras” da Educação, que nada mais são do que espaços que mais parecem shoppings centers com inúmeras ‘startups’, financiadas por investidores ou, até mesmo, administradores, gestores, empresários que pretendem apresentar soluções para o campo da Educação. Ao mesmo tempo, há grandes editoras vendendo papel para nós, professores e, no fundo, máquinas/impressoras que vão resolver o problema da aprendizagem ao imprimir algumas engrenagens para o ensino maker! Pois é! Todo mundo vendendo e lucrando, ganhando muito e nós, professores e professoras, com a luz sacerdotal, escutando, olhando e ficando com aquela sensação de euforia de uma criança que acabou de ganhar um doce! Sabe por quê? Porque somos apaixonados pela Educação e sempre queremos mais para os estudantes, por isso nos empolgamos, e as companhias/institutos/redes sabem disso!

Fonte: Pixabay

O salário do professor para uma jornada de 30 a 40 horas costuma circular na faixa dos R$3000,00 nas grandes cidades, considerando que estou sendo generoso, pois existem escolas que pagam muito menos e, com isso, os trabalhadores da educação são obrigados a fazer “bicos” para complementar a renda. Não é difícil você encontrar um professor na escola te oferecendo um bolo de pote ou algum cosmético como se fossem algum entorpecente, pois, se a escola pegar você comercializando, pode te mandar embora e te acusar de falta de ética. Eu mesmo cheguei a ser ator da desvalorização profissional quando dirigia UBER para complementar minha renda, mesmo sendo professor da Rede Pública e de duas escolas particulares.

Ao mesmo tempo que dirigia para o aplicativo de transportes, recebia, em meu e-mail corporativo, o “convite” para participar de palestras, organizadas pela escola, em que o tema sempre era voltado para melhorar as aulas, para promover o protagonismo do estudante, para ativar inúmeros conhecimentos dos alunos, mas, em momento algum, olhava-se para as pedras preciosas que estavam lá, sentados e cansados, nós professores, que “já não carregamos mais o brilho do início de carreira”!

Normalizamos aquilo que é comum: professor está acostumado a receber pouco! 

Amigo, vou lhe falar uma coisa: recebemos pouco porque nos pagam pouco e, infelizmente, temos que nos alimentar!

Nestes três últimos anos, pulei a fronteira daquele professor que apenas assistia a sala de aula e passei a conversar com aqueles que, outrora, eram somente nomes de editoras e estavam muito distantes da minha realidade e descobri algo que realmente me incomoda e continua me incomodando demais: a Educação remunera bem, aliás, muito bem, no entanto o único que não recebe bem é o professor!

Conhecimento custa muito caro e deve ser caro mesmo, pois, a partir dele, é possível criar outros saberes!

Antes de me despedir, com o choro de mais um holerite, deixo o recado final para alguns: redes, institutos, companhias, gestores… a melhor inovação que você pode oferecer para o professor é reconhecimento financeiro! O resto, passa…passa…

Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!

Mário Quintana

conheça o autor

Rodrigo Baglini

"A tecnologia mais eficiente criada pelo ser humano não são as máquinas tampouco os meios super mega ultra powers digitais, mas sim o diálogo, uma ferramenta de uso simples, mas de grande potencial em conectar, ajudar, colaborar e principalmente, AMPLIFICAR! -"

Uma resposta para “NÃO quero a MIGALHA, quero o BOLO!”

  1. Suzanne Sales disse:

    A verdade nada além da verdade.

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