O silêncio da escola era OBRIGADO!

Por Rodrigo Baglini · 12 de outubro de 2021

 A escola está silenciosa, aliás a escola sempre foi si…lenciosa!

Por muitas vezes, em épocas normais, ao chegar na sala dos professores e me jogar no caduco sofá de poucas espumas e cores bem pálidas na ponta da sala, dizia para meus colegas: “Gente, o sexto ano é muito barulhento! Será que eles conseguem fazer silêncio por um minuto para eu poder dar aula?”. A resposta, carregada de risadas dos professores e professoras sempre era a mesma: “Não! Esquece! Silêncio nos 6° anos? Sem chances!”

Fonte: Pixabay

Eu desejava, naquele momento, viver o silêncio, me conectar a minha prática docente/pedagógica, pensar por mim e pelos alunos e não por outros e, claro, descansar. O silêncio é bom, nos conecta com nosso eu, nos faz pensar, nos ergue ao descanso e quando conseguimos, por mais que seja difícil, também nos revigora. No entanto, o silêncio, para nós professores e professoras, não pode ser duradouro; precisamos do barulho como combustível e trilhos para nossas rodas e, quando o vento começa a ser o único som possível, a tristeza passa, então, a ser companhia no mesmo caduco sofá que tanto pedia o silêncio. Alguns exagerados sossegos nos trazem o vazio e a sensação de que tudo, até o momento, foi em vão.

Por que o silêncio incomoda se era isso que se desejava?

Incomoda porque ele vem se personalizando no último ano e meio nos corredores e salas vazias da escola, no cenário que passou a se desenhar com o retorno dos estudantes para a escola após o auge da pandemia. Confesso que, ao pedir o silêncio para o sexto ano, eu não queria a quietude sepulcral, desejava apenas um singelo momento de paz. Hoje, consigo sentir os barulhos do meu caminhar e o respiro do meu ofegar enquanto rumo até as salas de aula, coisas que, em tempos não muito distantes, era impossível.

Fonte: Pixabay

O corredor da escola sempre foi algo muito vivo, em que barulhos e pernas encostadas nas paredes formavam uma espécie de ritual de recepção do professor, em que costumávamos ser saudados ou não para mais uma aula, e nesse entreveiro, todo ficávamos dizendo: “Vamos, pessoal, entrem na sala, minha aula começará!” E um a um começava a embarcar na sala e se sentar em suas carteiras, que sempre foram dispostas de tal modo que todos se sentissem inseridos cada qual em seus territórios.

Este frenesi das trocas e inícios de aulas presentes em nossos cotidianos pousaram em março do ano passado quando, infelizmente, iniciou a pandemia e, com ela, o silêncio. Agora, a única coisa que sentimos, mesmo com o retorno, são os braços debruçados em cabeças baixas da sala e muito silêncio.

Nesses últimos tempos, realizei uma pergunta para os alunos em que a resposta eu já esperava, mas queria a confirmação da boca deles: “Vocês não estão vindo mais para a escola por que não querem, não é?” A resposta foi uma triste confirmação daquilo que, antes mesmo da pandemia, já sabíamos! “Sim, professor, a escola é chata e, como agora não somos obrigados a vir, decidimos ficar em casa!”

Certa vez, o grande Darcy Ribeiro comentou que o sucateamento da educação não era um acaso, mas sim um projeto de destruição e, com isso, a presença do estudante nas escolas estava vinculada pelo motivo mais sórdido que o sistema nos coloca, a obrigação.

O conhecimento liberta, o conhecimento nos forma enquanto cidadãos críticos, entretanto essa concepção e discussão que se apresenta, infelizmente, se resume apenas a nossas rodas/bolhas de professores, que “ainda” acreditam na educação, pois, ao perguntar para alguns alunos, que foram sempre marginalizados na própria marginalidade, o assunto será outro: “Conhecimento liberta, mas a comida alimenta! E se a escola não é obrigação, por que virei?”

Isto mostra que o barulho da escola, antes da pandemia, não era de alegria pela instituição, mas sim pelas imposições de alguns que permeavam o silêncio.

O que fizemos na pandemia para atingir os alunos?

A mesma coisa que fazemos antes dela. Adultos “maduros” organizando o que a criança/jovem irá fazer! Resultado…o silêncio, que tanto queríamos!

Isto mostra uma certa urgência, que normalmente não passa na cabeça dos organizadores do currículo, quando pensam em escolas que conversam com o interesse doutros.

A pandemia pode até servir como uma pequena muleta para justificar alguns fracassos na educação durante esses dois últimos anos, mas não pode carregar sozinha a culpa de um sistema cristalizado, pragmático e que apenas institui a escola como formadora de mão de obra barata, como se fosse um espaço em que o cidadão precisa apenas aprender a assinar o holerite e reconhecer números até o 1100! Vivemos tempos tão distópicos que isso garante que o trabalhador não passe de um (sal)ario mínimo.

Claro que não falo em nome de todos os estudantes, tampouco tenho a pretensão de representar a voz dos professores aqui, mas sei que, sobre vida cotidiana e “cheiro” de escola, que a obrigação de ir para o prédio escolar era o único chicote que segurava o estudante e que, ao quebrar esse elo, evidenciou-se o quanto a estrutura sempre foi falha. A evasão escolar não é culpa da pandemia, porém torna-se culpa da obrigatoriedade, que moldou sempre o que temos de realizar para atender o outro e não a nós.

“A vida é mais difícil do que a escola e você tem que se preparar para o pior”

“Essa molecada não quer nada com nada”

“Eles têm tudo e não ligam para os estudos”

São frases comuns que escutávamos/falávamos para pedir o silêncio daquele sexto ano que não queria “nada” com “nada”! Mas, em algum momento, perguntamos-lhes o que queriam? Acredito que não! Mesmo porque, se os alunos respondessem, iriam falar que a vida é muito mais complicada que a escola e que tenho que me preparar para ela! Com certeza, eu me mudaria para Marte, pois imagina viver sobre a “treta” e a pressão da escola enquanto passo fome!

Por isso, ao escolher o que eliminar, os estudantes escolhem a escola, afinal, ela não alimenta o agora e, tampouco, garante sua sobrevivência, coisa que, infelizmente, ele só consegue trabalhando.

Sendo assim, os corredores da escola continuarão vazios durante muito tempo, não vazios de alunos, mas vazios de sentido, com lacunas de interesse, e sons ocos dentro de seus significados.

O silêncio que pedi, ao sentar-me no sofá, era apenas momentâneo; não sabia que já vivia isso há muito tempo.

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Rodrigo Baglini

"A tecnologia mais eficiente criada pelo ser humano não são as máquinas tampouco os meios super mega ultra powers digitais, mas sim o diálogo, uma ferramenta de uso simples, mas de grande potencial em conectar, ajudar, colaborar e principalmente, AMPLIFICAR! -"

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